Limitando

Crônicas de um Homem Morto

04 maio 2014

Pausas - Parte XLIII

Talvez, dentre todas as coisas, eu sinta mais falta de não ter tempo livre.
Todos aqueles acontecimentos que, invariavelmente, estavam ligados, sobrepostos e dispostos de maneira que tudo, de um dia a outro, de semana a semana, fosse um grande e indissociável evento, com pequenos intervalos para respirar.

Assim, se tudo é apenas um único evento, todos nós começamos sem saber o que estamos organizando.

Não sei se eu poderia ter dado conta disso antes. Mas de maneira alguma a vida pode ser escrita durante as pausas.

Não mesmo.

30 março 2013

À Noite - Parte XLII


Lembrei-me de uma história

Ela apareceu como se procurasse por mim, mesmo sem saber da minha existência. Eu soube da dela, no ato. O olhar de desdém que se perdia ao fundo da casa noturna ignorava aquele que se dirigia a ela: o meu.

Era alta, maior que a maioria dos homens que a ignoravam e buscavam sucesso junto às demais. Talvez o seu vestido acompanhasse a dona nessa proporção em comparação às semelhantes do local, mas eu não tive tempo de preocupar-me com isso. Passava-me pela cabeça apenas o quanto o meu ego suportaria se soubesse que a atenção de alguns estava voltada para alguém cujo cotovelo ancorava-se na mesa para que a mão servisse como uma base para o binóculo alvejasse a beleza da lua.

Eu não tirava os olhos dela.

Voltei minha atenção para a Terra. Antes que pudesse acostumar-me, uma mão tocou o meu ombro ao mesmo tempo em que um "oi" ecoava pelo meu ouvido direito. Não sei se sorri para a sorte, mas quem tomei por astro estava à minha órbita.

E assim gravitamos por longas semanas.

O único problema das estrelas é que alguns eclipses duram muito mais que uma simples noite. E um eclipse nunca existe ao mesmo tempo para todos.

24 março 2013

A Espera - Parte XLI


Uma virtude não é alterada por fatores externos, se fosse, virtuosa não seria.

Parto de obviedade, chego ao objetivo: o que é entendido por paciência manter-se-ia como virtude mesmo que houvesse um erro acerca de sua compreensão?

Ou, assim, questiono: o que é pior, a inércia ou engano?

25 outubro 2012

Simplificar - Parte XL


Aqui há um caderno velho que não recebe a visita da caneta há muito tempo. Nele, estão ideias de um passado distante. Muitas incompletas, outras que não encontram mais eco na minha realidade. E há isso:

Livros são apenas papéis e palavras
Amizade é apenas frases e abraços
Quadros são apenas tinta e tela
Torcer é apenas gritos e gestos
Amor é apenas palavra e promessa
Música é apenas vibração e versos
Encontros são apenas ansiedade e surpresa
Férias são apenas pausa e alívio

Morrer é apenas lápide e rosas

Simplificar também pode ser cortar.

14 outubro 2012

Ser seletivo - Parte XXXIX


Nós somos as nossas escolhas. Cada uma delas ajuda a nos definir, a dizer quem somos. Vamos a uma história.

Naquele passado distante e enclausurado, havia uma moça que tinha o estranho costume de chorar às segundas-feiras. Não era apenas no início da semana, mas parecia que os acontecimentos nas suas folgas minavam o seu ânimo – que parecia ser reconstruído nos outro quatro "dias úteis".

Qualquer coisa alterava o seu humor. Só que um telefonema ou a ausência deste eram ainda mais impactantes. Mesmo que não me importasse, eu me aproximava uma vez ou outra para tentar entender aquelas súbitas alterações emocionais.

Quase sempre havia alguém a acudi-la. Os lamentos eram seguidos de soluço e frases encorajadoras como "não fique assim", "ele não te merece", "você vai encontrar alguém especial" e "você é uma boa pessoa" e outras afirmativas vazias como estas.

Pus-me a pensar. A causa do sofrimento, então, era outra pessoa. Ou melhor, outras. Não era possível que alguém repetisse o mesmo comportamento com o mesmo sujeito. Passei a observá-la melhor.

Eu não tinha mais o que fazer da minha vida e sempre chegava cedo. Parava no café e por lá ficava a observar como os cafés repousavam nas mãos por muito tempo, muito mais que o desejado por aqueles que têm sala exclusiva nesse andar.

Entre um gole d'água e outro, chegou a vítima dos homens. Óculos escuros na face, ignorou solenemente aqueles que estavam no seu caminho. De fato, os seus passos pareciam apressados demais para um escritório. Eu sorri.

Passei a repetir o ritual. Ela, como se houvesse combinado, cumpria com maestria o seu papel, repetindo com exatidão o que havia feito na primeira vez. Até que, uma manhã, houve um "bom dia" e um sorriso. Ele tinha uma sala exclusiva. Eu sorri novamente.

Enxerguei, ali, um possível padrão. Nas outras vezes, o cumprimento veio para mim, ou para algum outro vizinho de baía que estava no seu caminho e só. Pensei em timidez, mas logo a descartei a presenciar um pedido para aquelas que zelavam pela limpeza. E um cumprimento para um "sala exclusiva" distante.

Aproximei-me e perguntei:

- A sua seleção é método e, como tal, é indicativa de muita coisa. Você ainda acredita no que você é?

Finalizei com um "bom dia" e voltei para o café.

05 outubro 2012

Ao nível do mar - Parte XXXVIII


No ônibus, o meu companheiro de banco não esteva tranquilo. A sua roupa estava bem alinhada, a barba bem-feita e o cabelo meticulosamente penteado para trás. Porém, pela pele mal conservada e uma pequena dose de desconforto com as roupas, podia-se cravar que aquele sujeito estava indo para uma entrevista de emprego. Com a pasta transparente na mão, a aposta nesta hipótese era uma certeza de vitória.

Fiquei em silêncio. Antes de saltar, estendi um papel a ele e tomei o meu rumo. Reproduzo o conteúdo.

"A mediocridade é a mola-mestre das relações. O objetivo é manter-se no mesmo nível ou progredir. Não é possível fazê-lo com gente melhor do que você. Ou, ao menos, que aparente ser melhor que você. Assim, elogie para ser elogiado - e os faça crer no que você diz.

E se o padrão dos destinatários for o padrão do ambiente, sair-se-á melhor quem souber reconhecer a suposta qualidade existente. E como ela é irreal, a ilusão é realçada pela rede de elogios - e quem souber alimentá-la levará vantagem.

Lembre-se: seja natural. E dê bom dia."

Eu adoraria ver a expressão do candidato ao final da leitura. Na verdade, nem era preciso, eu ainda tenho os meus álbuns de fotografia.

29 julho 2012

Papéis - Parte XXXVII


Eu poderia, a qualquer momento, acreditar no que vejo. Estou sentado, longe do que me afeta, mas prefiro crer no meu sorriso - ele, ao menos, me parece real.

Vejamos: para aguentar a realidade eu necessitaria de algum véu. Então, prefiro adiantar-me e deixar o serviço mais fácil para todo mundo.

Uma longa trama ou ser um mero expectador: ainda existe gente que escolhe ficar de fora?

Sim, existe. Mas, em geral, eles só fazem uma aparição.

Sem audiência.

07 maio 2012

Bálsamos - Parte XXXVI


Um dia difícil pode ser qualquer um,
com mil compromissos ou uma topada,
ou indiferença ou sem gargalhada,
Ou contentar-se com algum ou nenhum.

Uma pedra pode causar uma mudança
Sem duvidar se estava no caminho.
É um risco inerente sairmos do ninho,
Mudança não é o objetivo da andança?

Bálsamos tornam-se tudo que ofusca.
Uma pausa, um objeto, um suspiro.
Sem eles, pensamos: "eu me viro",
nos viramos, de fato, à sua busca.


11 março 2012

A dona do vestido - Parte XXXV

Era inegável que, em qualquer outra pessoa, aquele vestido seria tão comum quanto um pão no café-da-manhã. O roçar nos joelhos da bainha ou as alças que pouco cobriam os seus ombros - nada disso era diferente do que podemos ver além da porta de entrada do restaurante semivazio e completamente decadente no qual estávamos.

Porém, as passadas do vestido tinham espectadores, embora não se possa dizer o mesmo para a sua dona em relação ao caminho por ela percorrido. Não fosse a destreza do garçom, o leve amarelo que dominava a sua vestimenta ganharia alguns tons de café.

Sem ligar para o desespero do garçom, tomou para si uma mesa onde havia ainda mais cinco lugares. E em poucos minutos, quatro deles foram preenchidos. Aos cumprimentos, seguiram-se o que eu posso julgar de elogios, sempre acompanhados de um leve sorriso e uma arrumada na mecha que pendia sobre o seu olho esquerdo.

A conversa era animada, com sorrisos, risadas e gestos a pontuá-la. Mas a dona do vestido não parecia conectar em nenhum momento. Quando ouvinte, levava a bebida à boca, como se estivesse procurando distração. Os olhos por vezes ganhavam o infinito, decerto acompanhando a sua imaginação. Nas raras vezes que falava, era através de fases curtas, onde logo era interrompida.  Quase sempre era o membro do grupo que falava mais alto e que não me pareceu ter muita educação.

Enquanto chamava o garçom para dar fim à minha presença ali, a dona do vestido levantou. Procurando a janela, a alcançou com um telefone na mão. Assim, rapidamente, já em frases que pareciam bem mais animadas, falou rapidamente e se voltou ao seu lugar. Em alguns minutos, o lugar ao seu lado seria ocupado.

Ela começou a falar. E voltou a sorrir.

06 fevereiro 2012

As preces - Parte XXXIV

Lembrei-me da época em que eu tinha semelhantes.

Havia um sujeito cuja camisa estava sempre em desalinho com quaisquer normas de elegância. Sobrava pano e as cores há muito haviam perdido o seu tom de fábrica. Aquele suor excessivo, que chegava a afastar a maioria dos membros do sexo oposto, deveria obrigar o dono a muitas lavagens com mais rigor do que o normal.

Porém, o que me chamava a atenção era a devoção àquele velho relógio branco de algarismos romanos com os ponteiros finos e negros que ficava na mesma parede da porta principal de nossa sala, bem em frente às janelas para a rua.

Quando desviava a atenção ao relógio, o sujeito parecia olhar para um altar religioso. Eu o imaginava direcionando preces, rogando votos, suplicando que, sei lá!, o Deus-Tempo interferisse nas horas e as fizesse ganhar velocidade.

Entretanto, a passividade do seu Deus parecia aumentar o fervor. A fé nunca lhe faltava. Com o avançar do tempo, a expressão tomava quase ares de desespero, o relógio tornava-se o seu fiapo de esperança, como se o sujeito se declarasse derrotado diante de todos os seus afazeres e só restassem as suas orações para sobreviver àquele infortúnio.

Era nesse momento que ele mordia o lápis com mais força a ponto de sentir o gosto amargo da madeira a invadir-lhe a garganta. Era o sinal para eu ir tomar um café com os outros.

E eu odeio café.

30 janeiro 2012

Apenas seguindo em frente - Parte XXXIII

Na maior parte das vezes, os sentidos são tão limitados quanto a visão: o seu raio de ação é reto, sem variações, sem surpresas.

É esse o carvão da mediocridade que alimenta a locomotiva que, claro!, só vai para frente, seguindo o caminho dos trilhos.

Sair dos trilhos é acidente.

Deixar de olhar apenas para frente é acidente.

Acidentes devem ser evitados.

29 outubro 2011

A Moral da História - Parte XXXII

Existe algo esquisito que vocês chamam de honra. De fora, a única noção que eu tenho é de algo subjetivo. Seria uma espécie de cobertura, que varia de pessoa para pessoa e que define limites sobre quem se é.

Assim, se é subjetivo, como lidar com as pessoas? Como interpretar os limites de cada um? Age-se como se todos tivessem uma? Ou ignoramos a sua existência e partimos do princípio que todos têm um preço?

E em todas as vezes que ouvi a palavra honra, havia sempre uma menção a "preço". Assim, parece-me que existe um nível onde a honra é atacada e um valor para que se possa comprá-la; definimos, então, uma espécie de faixa onde a consciência (e a honra não seria uma consequência desta?) impede que os homens ultrapassem o seu limite.

Ora, se todos os homens em estado normal estão dentro desta "faixa", se é a consciência que os mantêm assim - embora o ato de transpô-la também seja um ato racional - e se também é a consciência que define a honra de cada um; como falar que alguém tem honra ou se acreditar honrado?

Há de se supor, então, que exista um outro nível que distingua as pessoas, que as façam crer que são diferentes.

Um dia eu vou entender a moral dessa história.

13 julho 2011

Linhas - Parte XXXI

Uma linha à frente pode ter vários significados, a depender da posição do referencial e, principalmente, da forma pela qual este a interpreta.

Assim, uma linha pode ser um objetivo a ser trespassado, assumindo, então, que é aquele lugar que se quer atingir e ultrapassar. Pode, ser, também, um limite, estabelecendo uma divisão.

E, por último, uma linha pode ser imaginária. Aliás, qualquer linha - seja ela um objetivo ou um limite - é fruto de nossos pensamentos. Hemisférios e trópicos não existem, países não são reais. Se assim é, por que, então, as outras hão de ser?

Não são.

02 junho 2011

Acertando as contas com o passado - Parte XXX

Eu parei por um momento e me lembrei como era o passado. Ele era certo. Bem, certo e cinza.

Eu pensei em tudo o que eu fazia e no que me dava, de certa forma, prazer. Eu me lembrei dos computadores e das pessoas, e das pessoas e dos computadores. Dos telefones. Das ruas cheias. 

Assim, eu tentava me lembrar da definição de prazer. Foi difícil achar qual sorriso era real. E se eu fosse estabelecer uma relação entre o prazer e todo o resto, o que eu obteria? E se eu, à época, chegasse a esse cálculo, ele não seria afetado?

Aí, eu comparei com o que tenho hoje. Não há diferença. Quer dizer, há: eu sei fazer contas.

18 maio 2011

Confronto com o Espelho - Parte XIX

Parado, contemplando-o, há duas imagens que brigam entre si. Não são opostas - por vezes, acredita-se que não são iguais. E, assim sendo, há a ilusão que é possível mudar o vencedor. Não, não há. Ele sempre será o mesmo, não importa a ajuda que apareça.

E deixando este tipo de imagem de lado, a mudança de ambiente favorece o mesmo tipo de belicismo - só que quase sempre não-visual.

A mente leva ao conflito; o contraditório, à guerra. E a paz só pode levar à loucura.